por/by Douglas de Freitas
Mensagem das estrelas

Escrito por ocasião da exposição do artista no Museu de Arte de Ribeirão Preto/SP, em junho de 2016.

 

"Eis que no sétimo dia de Janeiro do presente ano de 1610, na primeira hora da noite, enquanto contemplava com o óculo os astros celestes, apareceu Júpiter. Dispondo, então, de um instrumento excelente, percebi (coisa que antes não me havia acontecido em absoluto pela debilidade de outro aparelho) que o acompanhavam três estrelinhas, pequeninas, ainda que claríssimas, as quais por mais que considerasse que eram do número das fixas, me produziram certa admiração, pois pareciam dispostas exactamente em linha recta paralela à eclíptica e também mais brilhantes que as outras de magnitude parecida."[1]

 

Publicado em 1610, Sidereus Nuncius, ou “A Mensagem das estrelas”[2], é um curto tratado escrito em Latim onde Galileu Galilei relata suas recentes descobertas sobre o universo, como observações sobre a Via Láctea, o corpo lunar e as luas de Júpiter. Galileu avançou milhares de passos ao realizar adaptações em um aparelho ótico que aumentaram trinta vezes a capacidade de ampliação de um objeto, inaugurando um novo momento no estudo dos corpos celestes.

 

De 1610 aos dias atuais muito mudou. A criação do Telescópio Hubble, lançado ao espaço em 1990, passou então a fornecer imagens do mapeamento das estrelas. O Hubble deu à civilização humana uma nova visão do universo e proporcionou um salto equivalente ao dado pela luneta de Galileu no século XVII.

 

Não se tratam mais de fotografias, ou imagens simplesmente captadas do espaço, o Hubble utiliza também de outros dispositivos para mapear territórios mais distantes, como raios gama, infravermelho e raios-X. Para se tornarem mais próximas à realidade visual dessas estrelas, essas imagens passam por uma série de softwares, que sistematizam as informações, produzindo imagens especulativas baseadas nos dados captados, transformando-os no que conhecemos desses espaços mais distantes de nós.

 

É dessas imagens de mapeamento espacial, satélites e outros equipamentos criados pelos humanos para alcançar o inalcançável, o espaço e o domínio do universo, que Ricardo Alves se apropria para a realizar suas pinturas. Extraídas da internet, essas paisagens construídas por aparelhos, muitas vezes mais ficcionais do que reais, são reconfiguradas pelo artista, trabalhadas em suas composições, para então originar suas pinturas.

 

Assim como paisagens terrestres de bases de lançamentos espaciais, são realizadas como se fossem territórios extraterrestres, ausentes de vida humana, telescópicos e outros artefatos de observação espacial são realizados pelo artista com toda estranheza que essas máquinas aparentam. É retratar o universo com o estranhamento que essas máquinas e imagens tem. É questioná-las, apesar de já estarmos com nosso olhar domado pela banalidade que essas imagens conquistaram.

 

Se essas imagens espaciais se constroem por especulação científica, a pintura lança mão de outras soluções, simplificações formais e esquemas que residem entre ser gráficos e registros desses equipamentos, como em Desenho de ondas supersônicas, onde a pintura é suporte para que se faça ver o desenho do movimento de um ônibus espacial. Ou ainda em Estrela anã em false color ou False color, onde uma simplificação formal dessas imagens realizadas por satélites, e coloridas artificialmente, se estruturam em novas cores e planos, convertidas em abstrações que remetem a essas imagens estreladas.

 

A pintura de Ricardo Alves é olhar essa imagem falsamente construída e atribuir novos valores de cor, profundidade e sentido para elas, nova construção. Uma construção mais humana, que assume suas falhas, suposições e incompletudes, como em Ultra Deep Field falhado. É propor uma nova metodologia de observação, menos científica. É uma devolução à imagem do mistério que os satélites removem do universo ao fotografá-lo. É retomar o encanto de embate com o desconhecido de modo menos direto, talvez mais próximo dos estudos e observações de Galileu, que carregam em si relatos poéticos do encontro com essas estrelas.

 

[1] Galileu Galilei em Sidereus Nuncius, publicado em Veneza, em 1610.

[2] A Mensagem das estrelas, versão em português do tratado de Galileu, foi editada pela Duetto Editorial em 2009 para a Scientific American Brasil.

The Sidereal Messenger

Written on the occasion of the artist’s exhibition at the Art Museum of Ribeirão Preto/SP, in June, 2016.

"Accordingly, on the seventh day of January of the present year 1610, at the first hour of the night, when I inspected the celestial constellations through a spyglass, Jupiter presented himself. And since I had prepared for myself a superlative instrument, I saw (which earlier had not happened because of the weakness of the other instruments) that three little stars were positioned near him – small but yet very bright. Although I believed them to be among the number of fixed stars, they nevertheless intrigued me because they appeared to be arranged exactly along a straight line and parallel to the ecliptic, and to be brighter than others of equal size."[1]

 

Published in 1610, Sidereus Nuncius, or “The Sidereal Messenger” [2], is a short treatise written in Latin, in which Galileo Galilei reports his recent discoveries on the universe, such as observations about the Milky Way, the lunar surface and Jupiter’s moons. Galileo achieved huge progress after he adapted an optical device in order to obtain a thirtyfold increase in its capacity to visually enlarge an object, inaugurating a brand-new stage in the study of celestial bodies.

 

From 1610 to current days a lot has changed. The Hubble Telescope, launched into space in 1990, started to provide stellar mapping images. Hubble gave human civilization a new vision of the universe and enabled scientific advances that are equivalent to those derived from Galileo’s spyglass in the 17th century.  

 

It is no longer about simply taking photographs or pictures in space; Hubble also employs other devices to map farther territories, using gamma rays, infrared and X-rays. In order to approach the visual reality of these stars, those images undergo a series of software processes that systematize the information, producing speculative pictures based on the captured data and transforming them into what we know about the spaces which are the furthest from us.

 

Ricardo Alves creates his paintings borrowing from these images, originated by spatial mapping processes, satellites and other machines conceived by humans, aiming at achieving the unachievable: space and the domain of the universe. Extracted from the internet, these landscapes built by devices, often more fictional than real, are reconfigured by the artist, addressed in his compositions and then used to originate his pieces.

 

Just as Earth’s landscapes around spatial launch bases, the canvases are painted as if they are extraterrestrial territories, lacking human life; telescopes and other artifacts for space observation are depicted with the strangeness they convey. It is about portraying the universe with the oddity carried by these machines and images. It is about questioning them, even though our sight is already tamed by the banality these pictures have gained.

 

While these space images are composed by scientific speculation, the paintings employ other solutions, formal simplifications and schemes that reside between being diagrams and records of these devices – such as in Drawing of supersonic waves, in which painting is the medium that allows us to see the tracing of a space shuttle’s movement, or perhaps in Dwarf star in false color or False color, in which a formal simplification of images produced by satellites, and therefore artificially colored, structure themselves into new colors and plans, converted into abstractions that refer to these starry pictures.

  

To look at Ricardo Alves’ paintings is to see this falsely built image and to attribute new values of color, depth and sense to it; a new, more human construction, that admits its failures, suppositions and incompletions, such as in Failed Ultra Deep Field. It is to propose a new, less scientific methodology for observation. It is to return to the universe its mystery, which is extracted by satellites when they photograph it. It is to resume the enchantment of facing the unknown in a less direct way, maybe closer to that of Galileo’s studies and observations, which carry within themselves poetic reports of the encounter with these stars.

[1] Galileo Galilei in Sidereus Nuncius, published in Venice, in 1610.

Ultra Deep Field falhado, 2015

óleo sobre tela / oil on canvas

110 x 110 cm / 43.3 x 43.3 in