por Douglas de Freitas
Mensagem das estrelas

 

 

"Eis que no sétimo dia de Janeiro do presente ano de 1610, na primeira hora da noite, enquanto contemplava com o óculo os astros celestes, apareceu Júpiter. Dispondo, então, de um instrumento excelente, percebi (coisa que antes não me havia acontecido em absoluto pela debilidade de outro aparelho) que o acompanhavam três estrelinhas, pequeninas, ainda que claríssimas, as quais por mais que considerasse que eram do número das fixas, me produziram certa admiração, pois pareciam dispostas exactamente em linha recta paralela à eclíptica e também mais brilhantes que as outras de magnitude parecida."[1]

 

Publicado em 1610, Sidereus Nuncius, ou “A Mensagem das estrelas”[2], é um curto tratado escrito em Latim onde Galileu Galilei relata suas recentes descobertas sobre o universo, como observações sobre a Via Láctea, o corpo lunar e as luas de Júpiter. Galileu avançou milhares de passos ao realizar adaptações em um aparelho ótico que aumentaram trinta vezes a capacidade de ampliação de um objeto, inaugurando um novo momento no estudo dos corpos celestes.

 

De 1610 aos dias atuais muito mudou. A criação do Telescópio Hubble, lançado ao espaço em 1990, passou então a fornecer imagens do mapeamento das estrelas. O Hubble deu à civilização humana uma nova visão do universo e proporcionou um salto equivalente ao dado pela luneta de Galileu no século XVII.

 

Não se tratam mais de fotografias, ou imagens simplesmente captadas do espaço, o Hubble utiliza também de outros dispositivos para mapear territórios mais distantes, como raios gama, infravermelho e raios-X. Para se tornarem mais próximas à realidade visual dessas estrelas, essas imagens passam por uma série de softwares, que sistematizam as informações, produzindo imagens especulativas baseadas nos dados captados, transformando-os no que conhecemos desses espaços mais distantes de nós.

 

É dessas imagens de mapeamento espacial, satélites e outros equipamentos criados pelos humanos para alcançar o inalcançável, o espaço e o domínio do universo, que Ricardo Alves se apropria para a realizar suas pinturas. Extraídas da internet, essas paisagens construídas por aparelhos, muitas vezes mais ficcionais do que reais, são reconfiguradas pelo artista, trabalhadas em suas composições, para então originar suas pinturas.

 

Assim como paisagens terrestres de bases de lançamentos espaciais, são realizadas como se fossem territórios extraterrestres, ausentes de vida humana, telescópicos e outros artefatos de observação espacial são realizados pelo artista com toda estranheza que essas máquinas aparentam. É retratar o universo com o estranhamento que essas máquinas e imagens tem. É questioná-las, apesar de já estarmos com nosso olhar domado pela banalidade que essas imagens conquistaram.

 

Se essas imagens espaciais se constroem por especulação científica, a pintura lança mão de outras soluções, simplificações formais e esquemas que residem entre ser gráficos e registros desses equipamentos, como em Desenho de ondas supersônicas, onde a pintura é suporte para que se faça ver o desenho do movimento de um ônibus espacial. Ou ainda em Estrela anã em false color ou False color, onde uma simplificação formal dessas imagens realizadas por satélites, e coloridas artificialmente, se estruturam em novas cores e planos, convertidas em abstrações que remetem a essas imagens estreladas.

 

A pintura de Ricardo Alves é olhar essa imagem falsamente construída e atribuir novos valores de cor, profundidade e sentido para elas, nova construção. Uma construção mais humana, que assume suas falhas, suposições e incompletudes, como em Ultra Deep Field falhado. É propor uma nova metodologia de observação, menos científica. É uma devolução à imagem do mistério que os satélites removem do universo ao fotografá-lo. É retomar o encanto de embate com o desconhecido de modo menos direto, talvez mais próximo dos estudos e observações de Galileu, que carregam em si relatos poéticos do encontro com essas estrelas.

 

Douglas de Freitas

Escrito por ocasião da exposição do artista no Museu de Arte de Ribeirão Preto/SP, em junho de 2016.

 

[1] Galileu Galilei em Sidereus Nuncius, publicado em Veneza, em 1610.

[2] A Mensagem das estrelas, versão em português do tratado de Galileu, foi editada pela Duetto Editorial em 2009 para a Scientific American Brasil.

Ultra Deep Field falhado, 2015

óleo sobre tela / oil on canvas

110 x 110 cm / 43.3 x 43.3 in